quarta-feira, 7 de maio de 2014

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DO MITO DE HERMES OU MERCÚRIO - Introduction to the myth of Hermes or Mercury

Prof. Dr. Oscar Luiz Brisolara


Na verdade, o mito, como verdade íntima, é o elemento de orientação do ser. O homem, desde suas origens, não produz os mitos. As ideias mitológicas ocorrem a ele: ele não as pensa, mas é pensado por elas poderíamos dizer. Os núcleos componentes de todos os mitos, das diversas culturas, os mitologemas, representam estruturas mentais básicas de todos os homens. (Walter Boechat).

Mercúrio - Artus Quellinus -
 Amsterdam Town Hall Royal Palace.


Ulysses
O mytho é o nada que é tudo.
O mesmo sol que abre os céus
É um mytho brilhante e mudo –
O corpo morto de Deus,
Vivo e desnudo.
Este, que aqui aportou,
Foi por não ser existindo.
Sem existir nos bastou.
Por não ter vindo foi vindo
E nos creou.
Assim a lenda se escorre
A entrar na realidade,
E a fecundal-a decorre.
Em baixo, a vida, metade
De nada, morre. (Fernando Pessoa, Mensagem)


         Conforme destaca a epígrafe acima, os mitos são uma forma de ensinamento que as gerações passam umas às outras. O mito é o formador dos homens. Segundo Karl Jung, quando trata do inconsciente coletivo, mitos como Gaia, Deméter, Sêmele, fundados na terra fértil expressam o arquétipo da Grande Mãe, a origem de todas as formas simbólicas e do próprio ego. Mitos masculinos como Dionísio Zagreu, Hermes e Apolo em sua fase infantil representam, como arquétipo, toda criança, nossa possibilidade de “vir-a-ser”, nossa criatividade e também nossas regressões patológicas a um infantismo inadequado.
         Por sua vez, heróis como Héracles, Teseu, Perseu e muitos outros mais personificam o movimento da energia psíquica do inconsciente para a consciência. Cada herói em particular é sempre filho de uma entidade imortal, arquétipo atemporal no inconsciente, com uma mortal, que personifica o ego e suas finitudes.
         A mitologia criou uma infinidade de entidades e configurações, de modo especial no panteão grego, que são o espelho de nossas próprias tendências inconscientes. Esse é o papel fundamental de todas as  mitologias, em relação à psicologia humana. A próprio mito move a psicologia de sua posição puramente conceitual e teórica, portanto, unilateral, pois a existência humana não pode ser contida em conceitos teóricos, e a fertiliza com imagens ricas sempre abertas a novas leituras e interpretações.
         Estabelece-se, desse modo, uma nova psicologia renovadora que possibilita novas  compreensões do homem, nas quais o irracional também tem seu lugar, pois o irracional mítico é parte componente do todo psíquico do ser humano.
         Esse é o sentido em que todos os símbolos existentes numa cultura atuantes em suas instituições são marcos do grande caminho da humanidade do inconsciente para o consciente, cujo resultado foi o próprio homem em seu estado emotivo-racional. Os mitos criam símbolos que expressam crenças, os costumes cristalizados no inconsciente humano como um fazer coletivo.
         É um processo semelhante ao da educação familiar, que segue a forma como os pais ensinam aos filhos como é a vida através dos relatos das experiências pelas quais passaram. O mito, num sentido mais amplo, delineia padrões de comportamento humano através da dimensão imaginária.
         Com o recurso da imagem e da fantasia, os mitos abrem para o inconsciente. Até mesmo os mitos hediondos e cruéis são da maior utilidade, pois nos ensinam, através da tragédia, os grandes perigos do processo existencial.
         Apontando para os padrões de comportamento humano, os mitos se constituem, através da história, como os marcos referenciais através dos quais a consciência pode voltar às suas raízes para torná-las mais vigorosas e consistentes.
         É praticamente impossível entender o pensamento ocidental e suas literaturas e seu cosmos (κόσμος) sem o apelo mítico, pois que o mito se apresenta como um sistema que tenta, de maneira mais ou menos coerente, explicar o mundo e o homem, mesmo quando se apartam da lógica formal.
         Logos (λόγος) e mythos (μύθος) constituem-se em duas faces da linguagem igualmente fundamentais na vida do espírito. O logos opera a racionalidade do espírito e opõe-se ao mythos.  Por seu lado, o mythos, o conhecimento transmitido por via narrativa, que através de deuses, heróis e monstros, abordando as questões mais inquietantes da comunidade, tais como a origem do mundo e do homem, o problema do mal, da morte e do destino e identidade humanos, busca a dar conta do ilógico e irracional que fazem parte da circunstância humana.  Como afirma Junito Brandão:

O “lógos”, sendo um raciocínio, procura convencer, acarretando no ouvinte a necessidade de julgar. O “lógos” é verdadeiro, se é correto conforme a lógica; é falso, se dissimula alguma burla secreta (um “sóphisma”). O mito, porém, não possui outro fim senão a si próprio. Acredita-se nele ou não. À vontade, por um ato de fé, se o mesmo parece “belo” ou verossímil, ou simplesmente porque se deseja dar-lhe crédito. Assim é que o mito atrai, em torno de si, toda a parte do irracional no pensamento humano, sendo, por sua própria natureza, aparentado à arte, em todas as suas criações. (BRANDÃO, 2002, p. 13-14).

         O mito, em sua dimensão às vezes absurda, funciona como um processo de esclarecimento. Contrapõe o racional absoluto, ao irracional ou relativo. Estabelece uma divisória que separa a lógica e a razão do “lógos”, da lógica, muitas vezes irracional, da vida que acontece ao nosso redor.

         Em continuidade, afirma Brandão:

E talvez seja este o caráter mais evidente do mito grego: verificamos que ele está presente em todas as atividades do espírito. Não existe domínio algum do helenismo, tanto a plástica quanto a literatura, que não tenha recorrido constantemente a ele. (BRANDÃO, 2002, p. 14).
         
         E Pierre Grimal, comentando o mesmo tema, afirma:

Para um grego, um mi to não conhece limites. Insinua-se por toda parte [...]. Reserva do pensamento, o mito acabou por viver uma vida própria a meio caminho ventre a razão e a fé [...] Até os filósofos, quando o raciocínio atingiu o seu limite, recorreram a ele como um modo de conhecimento capaz de comunicar o incognoscível (GRIMAL, 1952, p. 8).

         Tanto Brandão quanto Grimal comungam da mesma concepção de mito. Concebem-no como sendo uma manifestação, um sistema de comunicação, uma mensagem. O mito funciona como uma metalinguagem. É uma segunda língua na qual se fala da primeira. É um processo de simbolização que necessita sempre de uma leitura. Não se trata de um objeto, um conceito, uma ideia, é um processo de significação, em perpétua e contínua renovação. Trata-se de uma forma, um symbolon, poder-se-ia acrescentar.  Por isso mesmo não envelhece, porque a própria mudança do universo é a promotora de novas e fecundas leituras, interpretadas à luz dos sinais sempre novos de cada tempo. 


         Feitas estas considerações gerais sobre o sentido dos mitos, volto-me agora especificamente ao mito de Mercúrio. Entre os gregos que iniciaram o culto a essa divindade, era conhecida como Hermes (ρμής), para os egípcios era Toth.
         Era uma divindade protetora dos pastores e dos rebanhos. Era também o guardião da pedra sepulcral e, nesse sentido, mantinha a sagrada memória dos antepassados. Cuidava do umbral das casas: aquela sombra protetora que ficava à porta das residências.
         Além disso, protegia os caminhos, afastando os múltiplos perigos espreitavam os viandantes. Era o guarda das longas e solitárias estradas de antanho, eivadas de mistérios, ameaças e riscos: feras e salteadores estavam à espreita dos que necessitavam transpor distâncias a pé ou a cavalo.
         Por isso, cada transeunte, ao empreender uma viagem, lançava uma pedra em homenagem a Mercúrio. Como na antiguidade a maioria dos viajantes dedicava-se ao comércio entre os povos, com suas cavalgaduras e caravanas, com cavalos ou camelos, era a divindade especial dos comerciantes. Esse mito também está relacionado à palavra e à comunicação.
         Segundo a versão grega, Hermes era filho de Zeus e da ninfa  Maia, uma das Plêiades, teria nascido num dia 4, número que lhe é consagrado. Seu nascimento ocorrera numa caverna do monte Cilene, na Arcádia. Ao nascer, fora deposto, envolto em panos, na cavidade de um salgueiro. Livrando-se das amarras dos panos protetores , saíra andando pelos bosques.
         Ao chegar aos campos, descobre os rebanhos de Admeto ('δμητος), rei mitológico de Feras, que estavam sob os cuidados de seu irmão Apolo. Rouba-os e foge com os animais através da Hélade.
         Para despistar as pegadas dos animais, amarra ramos de plantas ao rabo deles que vão apagando as marcas do solo. Esconde o rebanho. Fabrica uma lira com um casco de tartaruga e retorna ao oco da planta de que havia fugido, tornando a envolver-se como os panos de que se desvencilhara na saída. Finge-se inocente de qualquer ação maldosa.
         O sábio Apolo conclui que somente poderia ser seu irmão Hermes quem lhe roubara os rebanhos. A mãe Maia semeia a dúvida na certeza de Apolo, com o argumento de que seria impossível a uma criança tão indefesa cometer tamanha maldade.
         Confuso, Apolo vale-se do pai, Zeus, que interroga Hermes. Depois de negar seus atos e buscar convencer o pai de sua inocência sem resultado, acaba declarando seu ato. O pai dos deuses exige que se retrate com o irmão, confessando sua maldade. Diante da revelação de Hermes, Apolo e Maia exigem-lhe um juramento de que daí em diante, jamais haveria de mentir. Hermes concorda com a exigência, mas não jura, apenas declara, com uma ressalva: não se obrigaria a dizer a verdade por inteiro. Mostra-se sempre dissimulado e ambíguo no uso das palavras.
         Como as estradas e os caminhos levam aos povos, que muitas vezes falam diferentes idiomas, ele é também a divindade da interpretação e da tradução. Seus dons de astúcia e sagacidade argumentativa fizeram-no o protetor dos advogados e dos oradores, como também e de todos os profissionais que usam da linguagem como seu instrumento de trabalho. Trazia, também, sempre consigo um bastão mágico: o caduceu, com que tangia as almas na sua longa caminhada para a outra vida.
         Era, além de tudo, a divindade protetora dos ladrões, pelo roubo dos rebanhos guardados por seu irmão. Essa fase do mito funda-se nas pilhagens e atividades predatórias entre os pastores comuns na Idade do Bronze, que se revestiam de honra e de espetacularidade. Segundo Tucídides, essas façanhas eram dignas de elogios e cantadas pelos poetas. O mesmo ocorria entre os romanos nos tempos da fundação da cidade de Roma, no século VIII a. C. Não tinham a conotação que o roubo passou a ter nas sociedades através do processo civilizatório.

Mercúrio de Evelyn - Pickering
de Morgan - 

             Para Jeremy Taylor, Hermes foi uma figura central no processo de transformação da sociedade grega de uma cultura nômade matriarcal, sem leis, sustentada por um banditismo de invasões e riscos constantes, para um grupo urbano, sedentário, com regras de comportamento social, com uma economia organizada, fundada na agricultura e em princípios religiosos.
       O processo predatório de roubo de gado foi-se gradativamente convertendo em sistemas de troca que originaram o comércio. O enfrentamento bélico das guerras evoluiu para as disputas dos jovens nos campos de jogos, culminando nos  campeonatos plurinacionais de Olímpia. Tudo isso exigiu a elaboração de códigos de leis e acordos, num longo processo que culminou na criação da confederação das cidades-estados gregas que deu origem à própria Grécia, conhecida por eles como Hélade. Essas cidades criaram sistemas de governo e se foram sofisticando nos costumes, nas ciências e nas artes.
         O mito de Hermes constitui-se no próprio impulso civilizador que conduz à polis (πόλις) e à criação do homo politicus, que supera as transformações socioeconômicas, conforme afirma Riker:

Hermes é mais do que um mito socioeconômico, é uma representação de uma das mais profundas capacidades da psique, que começou a ser compreendida no período arcaico: o poder da transformação. Fazendo uma lira de uma tartaruga e de tripas de carneiro e distorcendo os juramentos sagrados, mudou a natureza em cultura, mudou a linguagem divina em linguagem humana, o estranho em familiar, o obscuro em consciência, a convenção em adaptabilidade, o incomunicável em articulação e interpretação, um mundo bruto em um mundo humanizado por significados e valores. (RIKER, 1991, p. 180).

       O caráter ambíguo, dissimulado, evasivo e dúbio do comportamento de Hermes revela mitologicamente os limites do racional que sustentava o filosofia fundada na lógica do discurso dos  pensadores ilustres.
        O mito de Hermes, em suas constantes evasivas, denuncia as ambiguidades e a relatividade do discurso do logos, tido como verdadeiro e absoluto, apontando para o paradoxal, para a efemeridade das teorias e a provisoriedade dos paradigmas.
         Aponta para as zonas intrincadas da interpretação e da hermenêutica. Enquanto lança luzes sobre novas possibilidades de interpretar, pode confundir e perder. Há sempre a possibilidade da fraude, do engano, da mentira. O discurso pode sempre conter um engodo. O que se reveste de verdadeiro, lógico, científico, pode esconder uma estratégia de espoliação e domínio.

BIBLIOGRAFIA
1.   BARTHES, Roland. (1972). Mitologies. Paris: Édicions Seuil.
2.   BRANDÃO, Junito. ) 2002) Mitologia grega.Vol. I. Petrópolis: Vozes.
3.   Grimal, Pierre. (1952). La mitologie greque. Paris: PUF.
4.   HESIODO. (1991) Teogonia. São Paulo: Iluminuras.
5.   RIKER, John H. (1991) Human excellence and an ecological conception of the psyche. New York: State University of New York Press.